A microbiota intestinal é formada a partir do nascimento até os três ou quatro anos de idade da criança e sofre interferência de vários fatores, incluindo tipo de parto (natural ou cesáreo), aleitamento exclusivo ou fórmula, alimentação adequada a partir da introdução alimentar e ambiente. Por isso, quando expostos a determinados medicamentos precocemente, os bebês podem ter uma alteração importante dessa microbiota ainda em formação. “Antibióticos, IBPs e outros fármacos administrados nos primeiros meses de vida podem interferir criticamente na colonização microbiana, associando-se a um risco aumentado de alergias, obesidade e doenças metabólicas futuras”, alerta o professor Pedro Barata.
No adulto, outros sítios microbianos além do intestinal podem sofrer com a ação de alguns medicamentos, como as microbiotas oral, cutânea, vaginal e pulmonar. Por exemplo, antibióticos e corticosteroides podem alterar a flora vaginal, favorecendo candidíase; inalatórios esteroides podem modificar a microbiota das vias aéreas e IBPs alteram o microbioma gástrico e oral.
A professora Caroline Cardozo Gasparin complementa que a amoxicilina também pode influenciar no microbioma oral, elevando a abundância relativa de Proteobacteria e Firmicutes, e diminuindo a abundância de Actinobacteria e Fusobacteria. “É sempre importante destacar que medicamentos, no geral, têm algum tipo de efeito colateral. Mas, muitas vezes, seus benefícios superam os efeitos indesejados. Por isso, é essencial tomá-los sob prescrição e acompanhamento médico”, sinaliza.
Independentemente disso, os médicos deveriam conhecer essas correlações para que possam prescrever medicamentos que não afetem a microbiota de maneira importante. Para o professor Pedro Barata, o conhecimento do impacto microbioma-fármaco deve integrar a prática clínica, promovendo prescrições mais conscientes, com potencial inclusão de estratégias de mitigação, como probióticos ou ajustes de dose, especialmente em doentes crônicos ou vulneráveis. •

