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Erros inatos da imunidade

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Os erros inatos da imunidade desafiam a medicina

Escrito por: Fernanda Ortiz

Os erros inatos da imunidade (EII) formam um grupo complexo e heterogêneo de doenças congênitas que afetam o funcionamento do sistema imunológico, predispondo a uma maior chance de desenvolver infecções recorrentes, doenças alérgicas graves, inflamações, doenças autoimunes e ­doenças ­malignas. De acordo com a ­última revisão do Comitê de Erros Inatos de Imunidade da União Internacional de Sociedades Imunológicas (IUIS, na sigla em inglês), de 2024, foram classificados 559 defeitos de imunidade, incluindo 67 novos genes e duas novas fenocópias com formação de anticorpos contra componentes do sistema imune que mimetizam a própria deficiência.

Com incidência variável a depender da doença, estima-se que 1:450 a 1:200 mil nascidos vivos em todo o mundo sejam acometidos por uma dessas condições. Embora sejam raras individualmente, como grupo essas doenças representam uma das principais causas de morbidade e mortalidade, particularmente na infância. Entidades especializadas destacam que entre 70% e 90% dos pacientes permanecem sem diagnóstico, o que pode resultar em tratamentos inadequados, agravamento da condição de saúde, complicações adicionais e, em casos extremos, o óbito.

O sistema imunológico é responsável pela defesa do organismo contra agentes nocivos. Para exercer tal função, é composto pela imunidade inata e imunidade adaptativa ou adquirida, que reconhece cada patógeno e age de maneira específica para combatê-lo.  A imunidade inata inclui componentes como as proteínas do sistema complemento, fagócitos e células NK (natural killer). As barreiras físicas e químicas são mecanismos inespecíficos e importantes para a defesa, como lágrimas e acidez do suco gástrico. “A falha neste sistema pode ser resultado de defeitos genéticos que comprometem a imunidade inata e adaptativa, bem como a regulação imunológica.

Quando ocorrem, podem resultar em infecções graves, doenças autoimunes, doenças autoinflamatórias sistêmicas ou hematológicas, alergias graves e alguns tipos de câncer”, descreve a pediatra especialista em Alergia e Imunologia Ekaterini Simões Goudouris, coordenadora do Departamento Científico de EII da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), presidente do Departamento de Imunologia Clínica da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e professora doutora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Antes denominado imunodeficiência primária, este grupo teve a nomenclatura substituída para EII por causa do aumento do número de defeitos descritos, em que há mais manifestações relacionadas à desregulação do sistema imunológico do que propriamente à sua deficiência.

Os EII são causados por mutações da linhagem germinativa que resultam em perda de expressão, assim como perda ou ganho de função de proteínas codificadas, afetando o desenvolvimento ou a função do sistema imunoló­gico.  A herança genética nos EII  pode ser dominante ou recessiva, autossômica ou ligada ao cromossomo X e, ainda, com penetrância completa ou incompleta, resultando em diferentes fenótipos clínicos. “Além disso, os EII podem ocorrer mesmo sem história familiar por mutações durante o desenvolvimento embrionário ou por fatores ambientais, que acabam por interagir com as mutações genéticas e desencadear a manifestação dos sintomas, especialmente em ocorrências tardias”, explica o pediatra, alergista e imunologista ­Persio Roxo-Junior, profes­sor associado e chefe da Divisão de Imunologia e Alergia Pediátrica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo ­
(FMR­P-USP). O mesmo defeito genético pode se manifestar de maneiras distintas em cada indivíduo, ou seja, com diferentes graus de severidade e idade de início com diferente gravidade.

De acordo com a pediatra, alergista e imunologista Anete ­Sevciovic Grumach, professora livre docente do Departamento de Imunologia Clínica e especialista do Centro de Referência para Doenças Raras do Centro Universitário da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), o estudo dos EII tem proporcionado avanços na prática da medicina molecular de precisão e na identificação de novos fenótipos. “Esse cenário contribui para uma maior compreensão dos mecanismos moleculares, celulares e imunológicos dessas doenças, melhorando o manejo dos pacientes e de suas famílias”, avalia.

Segundo o Comitê de Erros Inatos de Imunidade da IUIS, a classificação geno­típica ­dos EII tem 10 grupos distintos: imunodeficiências com­bina­das; imunodeficiências combinadas com características sindrômicas; deficiências predominantemente de anticorpos; doenças de desregulação imune; defeitos congênitos de fagócitos; defeitos na imunidade intrínseca e inata; doenças autoinflamatórias; deficiências do complemento; falência da medula óssea e fenocópias de erros inatos de imunidade. A imunologista Anete Sevciovic Grumach comenta que o número de distúrbios descobertos vem crescendo a uma taxa sem precedentes todos os anos, incluindo defeitos genéticos raros e comuns.

Sinais de alerta – Devido à subnotificação, à complexidade dos casos e ao baixo acesso ao diagnóstico, o número real de indivíduos com EII é desconhecido pelas principais entidades de Pediatria e Imunologia. Para auxiliar o reconhecimento precoce, recentemente a ASBAI atualizou e agrupou a lista com os sinais de alerta para essas condições – antes dividida entre crianças e adultos. “Com foco nas manifestações clínicas mais comuns e relevantes para diferentes perfis de pacientes, os novos critérios refletem o avanço no entendimento dos EII e reconhecem que essas doenças não são exclusivas da infância”, observa a pediatra Ekaterini Simões Goudouris.

  • História familiar de EII ou consanguinidade
  • Infecções frequentes prolongadas ou causadas por microrganismos incomuns
  • Diarreia crônica de início precoce
  • Quadros alérgicos graves
  • Reações adversas incomuns a vacinas atenuadas
  • Características sindrômicas associadas
  • Déficit de crescimento
  • Febre recorrente ou persistente sem causa definida
  • Manifestações precoces ou múltiplas de autoimunidade, como citopenias ou endocrinopatias
  • Casos de câncer precoce, incomum ou recorrente

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