Em 2025, o Brasil completou 40 anos de resposta ao vírus da imunodeficiência humana (HIV) e à síndrome da imunodeficiência adquirida (aids). De acordo com o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, a estimativa cumulativa de pessoas vivendo com HIV ou aids neste período é de 1.679.622 brasileiros. Atualmente, estima-se que 1,1 milhão de pessoas vivam com HIV no País. Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), publicada em agosto de 2025, reacende as esperanças desses brasileiros ao alcançar resultados inéditos apenas com medicamentos. O ensaio clínico combinou antirretrovirais de alta potência com substâncias inovadoras que atuam na ativação e eliminação de reservatórios virais, além de estimularem o sistema imunológico a destruir células infectadas. Uma terapia celular personalizada também foi desenvolvida para reforçar essa resposta imune. O médico infectologista Ricardo Sobhie Diaz, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, diretor do Laboratório de Retrovirologia da Unifesp e coordenador do estudo, conta detalhes da pesquisa que visa tentar eliminar o vírus no corpo das pessoas de forma definitiva.
Como foi realizado o estudo?
Em 2012, começamos a pensar em algumas estratégias para atender a uma necessidade emergente e atual, que era tentar eliminar o vírus no corpo das pessoas de forma definitiva. Os desafios são inúmeros, mas há dois desafios modernos que se traduzem pela inflamação que a pessoa tem de forma continuada quando vive com HIV e que é mitigada pelo tratamento, mas não abolida. E essa inflamação faz com que esse indivíduo envelheça mais rapidamente, porque degenera tecidos, órgãos e todo o organismo. E a outra necessidade é eliminar o vírus do corpo. Começamos a perceber que o caminho para diminuir essa inflamação e para curar esses indivíduos era o mesmo. Assim, teríamos de diminuir a quantidade de células no corpo de quem tem HIV, porque essas células persistem com o vírus de forma latente. E aí, começamos a pensar em como diminuir esse contingente de células para desenhar esse estudo.
Como foi possível fazer isso?
O infectologista ficou muito competente em controlar a viremia das pessoas, ou seja, a replicação viral. E fazemos isso com os medicamentos do coquetel e com medicamentos antirretrovirais. Só que, para diminuir a quantidade de HIV do corpo de uma forma mais acelerada e efetiva, não basta controlar o vírus. E começamos a entender que teríamos de diminuir o número de células que têm HIV. Percebemos já naquela época que teríamos de combinar estratégias para que isso desse certo. E traçamos estratégias que pudessem cumprir esse objetivo – e não é uma estratégia, são várias. Hoje, isso é algo que parece trivial, mas, na época não era. Os estudos mostravam que entendíamos alguns caminhos para fazer com que o vírus fosse eliminado do corpo, mas isso não funcionava porque eram caminhos isolados. E foi justamente essa combinação que deu um pouco mais de repercussão e fez com que nosso estudo tivesse um pouco mais de sucesso.
Nessa combinação foram usados antirretrovirais e outros medicamentos?
Foi isso. O que sabemos hoje é que, na hora que começamos a tratar uma pessoa, esse tratamento fica permanente para a vida inteira. Na hora em que paramos o tratamento, o vírus volta e, normalmente, semeia de novo pelo corpo todo tirando o benefício que, às vezes, essa pessoa conseguiu com anos de tratamento. E o vírus volta porque ‘acorda’. Assim, começamos a entender quais eram as barreiras para curar esse indivíduo. E uma dessas barreiras é justamente o fato de o vírus entrar em latência. Na hora que entra na célula, o HIV ‘dorme’ e coloca essa célula para dormir também. E o indivíduo fica com um contingente grande de células com vírus latente. Mas essa latência é interrompida e vai fazendo com que, aos poucos, uma célula acorde. E é por isso que, quando interrompe o tratamento, o vírus volta: uma célula dessas ‘acordou’. Então, percebemos que, junto com o tratamento do coquetel, tínhamos de diminuir essas células que estão com o vírus latente, acordando o vírus de uma forma mais acelerada. E, para isso, usamos medicamentos. Mas essa não foi a única estratégia. Por exemplo, começamos a entender que o modelo da Oncologia lida com células doentes, matando-as. Então, além de controlar o vírus, teríamos de matar essas células. Só um detalhe: vírus não tem vida e, portanto, não se mata vírus. Mas gostamos de falar que estamos matando o vírus. E também começamos a encontrar medicamentos que poderiam, de certa forma, eliminar essas células – além da própria imunidade da pessoa, que chamamos de resposta imune adquirida e é algo que se perde ao longo do tempo na hora em que tratamos uma pessoa com HIV, porque o vírus começa a ficar praticamente invisível ao sistema de defesa. Então, fizemos uma vacina que, na verdade, é uma terapia celular para fazer com que o corpo voltasse a eliminar essas células infectadas pelo HIV. E juntamos tudo isso, porque também entendemos que o tratamento convencional não é potente o suficiente para eliminar toda a multiplicação do vírus. Usamos medicamentos para acordar o vírus, que chamamos de medicamentos reversores de latência, e um medicamento para matar especificamente a célula que tem o vírus, como se fosse um quimioterápico. Essa terapia celular foi usada para reconstituir a resposta imune adquirida. E, na hora que fizemos isso nesse estudo exploratório, conseguimos perceber que com a combinação de todas essas estratégias – que foi um braço desse estudo, que tinha seis braços e era complexo – tivemos maior controle do vírus. Então, isso nos deu a perspectiva de continuar com a mesma estratégia para a próxima fase do estudo, em que ampliamos o número de pessoas.
O estudo inicial tinha 30 pessoas?
Sim, selecionamos 30 pessoas com HIV que estavam em tratamento estável com o coquetel para tentar diminuir a quantidade de células com o vírus. E sabíamos que, se conseguíssemos isso de forma efetiva, poderíamos curá-las. Então, selecionamos os indivíduos e dividimos em grupos diferentes: um grupo controle para observar o tratamento natural; um grupo que só intensificou o tratamento; um grupo que, além da intensificação, recebeu medicamentos que revertiam a latência do vírus; um grupo que, além da intensificação com esse medicamento que mata a célula, recebeu a terapia celular; e um grupo que recebeu tudo. Agora, queremos fazer uma próxima fase com um braço controle com 10 pessoas, e com 60 pessoas tendo todas essas intervenções. “É claro que a ciência vai avançando e o nosso estudo colocou um pedacinho de perspectiva nisso para, cada vez mais, chegarmos próximos do momento em que teremos uma escala grande de pessoas que podem ter essa remissão sustentada do HIV… E aí deveremos ficar cada vez mais próximos de entender e explorar o que é melhor em termos de nos aproximarmos da cura.
Com esses resultados, o caminho ficou mais curto para a cura da aids?
Acho que nos aproximamos. Já suspeitávamos que isso era tangível, porque o HIV só compromete células que são substituídas. Logo, já suspeitávamos que poderia ser curado. E provamos esse conceito. O transplante de medula, que já tem oito casos, cura essas pessoas. O que acontece hoje é que existe uma recomendação de um grande grupo de pesquisa de que não seja chamado de cura. Assim, usamos uma terminologia mais conservadora e chamamos de remissão sustentada do HIV sem antirretrovirais, mostrando que é possível parar o tratamento e o vírus não voltar. Mas, às vezes, não volta porque o corpo dessa pessoa aprendeu a controlar o vírus. E, muitas vezes, de forma legítima, o HIV foi embora para sempre. Então, é claro que a ciência vai avançando e o nosso estudo colocou um pedacinho de perspectiva nisso para, cada vez mais, chegarmos próximos do momento em que teremos uma escala grande de pessoas que podem ter essa remissão sustentada do HIV sem necessidade dos medicamentos.
Que vírus é esse que há 40 anos assombra o mundo?
O HIV é um patógeno de sucesso. O vírus saiu do macaquinho – é uma zoonose –, entrou em um primata superior, o homem, se expandiu e se fixou pelo mundo inteiro. E é um patógeno de sucesso, primeiro, porque muda muito, porque tem uma variedade grande e vai mudando. O fato de mudar muito, por exemplo, faz com que consiga se evadir do sistema imune. E, mais do que isso, não conseguimos montar uma vacina que seja preventiva pelo fato de mudar muito, pois, na hora em que entra no corpo é muito complexo e tem uma multiplicação muito grande. Esse índice de replicação muito alto, somado à complexidade desse componente antigênico, faz com que o corpo humano tenha uma certa tolerância ao HIV. Então, logo no comecinho, existe uma fratura do sistema imune que não consegue eliminar esse vírus. E aí o HIV persiste, porque entra em latência e começa a ficar quietinho.
Os medicamentos antirretrovirais do coquetel controlam a replicação do vírus de forma efetiva?
Entre aspas. Os antirretrovirais inibem o ciclo de replicação, ou seja, o vírus precisa se multiplicar para o medicamento agir. Se fica latente, o medicamento não age. E é por isso que tentamos ‘acordar’ o vírus com esses medicamentos reversores de latência, para que o coquetel possa agir e para que possamos eliminar as células que têm o HIV. Então, esses são os caminhos de sucesso desse patógeno. Primeiro, consegue se evadir pela sua complexidade e diversidade genética e vai mudando muito rapidamente e sofrendo essa seleção natural. E, segundo, simplesmente se esconde pela dormência em locais onde os medicamentos não chegam – que chamamos de santuários. O cérebro é um santuário, assim como os testículos e ovários. Existem locais que não têm muito acesso aos medicamentos e é onde o vírus está (barreira hepatocelular), e onde as células estão tão próximas umas das outras que não passa água. Nessas barreiras, o vírus já entrou e não se consegue fazer com que os medicamentos se concentrem de forma efetiva.
O vírus se espalha por células de todo o corpo?
Não. Esse que é o detalhe. O HIV tem um repertório pequeno de células que pode comprometer, que são as células sanguíneas. Essas células, às vezes, viram células do sistema nervoso, mas o vírus só entra em um repertório pequeno de células que têm o próprio receptor dele – diferentemente da covid, que entra em praticamente todas as células do corpo. Então, já sabemos onde o HIV está, onde está esse reservatório e já entendemos como funciona e como esse vírus mata as pessoas. Além disso, já entendemos como fazer para controlar esse vírus. E avançamos muito, porque, hoje em dia, a expectativa de vida de quem tem HIV é semelhante ou, às vezes, até maior do que quem não tem. Mesmo assim, o vírus continua fazendo com que as pessoas envelheçam mais rapidamente. E esse é um dos grandes desafios que ainda temos.
Por que as pessoas envelhecem mais rápido por causa do vírus?
O HIV causa uma inflamação ruim. Inflamação é para ser boa, porque nos protege contra infecções, contra patógenos e repara o nosso corpo. Mas existe uma inflamação ruim, que é uma microinflamação característica de doença crônica como diabetes, doenças reumatológicas, hipertensão arterial, disfunção ventricular esquerda e outras. Essa inflamação ruim também acontece no HIV. Em inglês, chamamos de inflammaging, que é a inflamação que envelhece as pessoas. Então, essa microinflamação degenera todos os tecidos, e o processo de envelhecimento nada mais é do que a degeneração desses tecidos. E isso fica acelerado pelo HIV. Assim, o corpo de uma pessoa com HIV funcionaria como se tivesse 15 anos a mais. E esse processo não é completamente abolido pelo tratamento, mas é uma das funções importantes no combate ao HIV, ou seja, não só controlar o vírus e permitir que a expectativa de vida seja grande, mas também mitigar esse processo inflamatório para que não ocorra esse envelhecimento acelerado. Na hora que controlamos esse processo inflamatório, reduzindo a quantidade de vírus no corpo da pessoa, a deixamos mais próxima da cura, e vice-versa.
Todas as pessoas com HIV terão aids?
Não, e isso é interessante. A história dessa doença já mostra que 1% das pessoas não desenvolvem aids, porque naturalmente controlam o vírus. Essas pessoas são chamadas de ‘controladoras de elite’, porque têm algum favorecimento do próprio corpo e o vírus não vai causar doença nelas – pelo menos não uma doença que culmine em aids. E há pessoas que são o oposto e progridem muito rapidamente. O tempo para uma pessoa adoecer é de 8-9 anos. E o adoecer é levar à aids. O que acontece é que o vírus, aos poucos, vai diminuindo as células de defesa. A principal célula de defesa do corpo humano é a T CD4. Uma pessoa com HIV, de forma natural, produz e elimina 10 bilhões de vírus todo dia. E isso é controlado pela imunidade das células T CD4. Cerca de 2 milhões de células T CD4 são repostas e eliminadas pelo vírus todos os dias, e existe uma guerra desse exército amigo com o inimigo, que é o vírus. E essa guerra fica em equilíbrio por décadas, mas, aos poucos, o vírus vai invadindo o quartel general do exército amigo, que é o sistema linfoproliferativo composto de linfonodos, intestino, e vai causando inflamação. A consequência da inflamação é uma cicatriz fibrosa, e chega um momento em que a pessoa não consegue mais repor soldados para essa guerra e o exército amigo perde. É aí que o indivíduo desenvolve aids. Tem pessoas que vão desenvolver aids em dois anos, outras em 15 anos. Mas a aids é o final dessa história. E temos conseguido fazer com que as pessoas não cheguem mais a esse final, usando os medicamentos do coquetel para que não desenvolvam aids.
Já é claro o papel da mucosa intestinal na infecção por HIV?
Não da mucosa, mas do próprio intestino. O HIV não vem do sangue, mas dos órgãos linfoides que são linfonodo, timo, baço, fígado e intestino. O maior órgão linfoide do corpo humano é o intestino, e 60% dos linfócitos estão no trato gastrointestinal por um motivo óbvio: é o nosso contato com o meio externo e serve para nos proteger dos patógenos veiculados pelos alimentos. O HIV destrói aquilo no momento inicial de uma forma muito rápida. E essa microinflamação vem dali também. Porque as bactérias que vivem no intestino começam a invadir o trato gastrointestinal fazendo uma translocação bacteriana. E esse pedacinho de bactéria ativa o sistema imune e causa essa microinflamação.
A maioria das pessoas com HIV não vai desenvolver aids se estiver tomando os medicamentos?
Se a pessoa descobrir que tem HIV agora, já ganha vários benefícios – apesar do fato de ter contraído o vírus. Primeiro, não vai desenvolver aids porque vai tratar, e o segundo benefício é que não vai transmitir mais o vírus, que é algo de importância grande. E em termos epidemiológicos globais, isso é um instrumento para diminuir o passo da epidemia. Então, diagnosticar as pessoas de uma forma mais ampla e rápida possível, e incluí-las no tratamento é muito bom, tanto para a pessoa quanto para a epidemia de forma global.
E como desconfiar que se pode ter contraído esse vírus?
O HIV não dá nenhum sinal. E qualquer um pode ter HIV, então, as diretrizes hoje indicam testar o maior número de pessoas. E temos instrumentos, por exemplo, para levar a transmissão de mãe para filho para zero. Isso significa que uma mulher gestante tem de ser testada mais de uma vez e ser incluída em tratamento, de uma forma quase urgente, porque a gestação tem prazo de validade. E sabemos também que é possível interferir na transmissão da doença com medicamentos. É preciso lembrar que falhamos muito quando tentamos mudar o comportamento das pessoas – que é o mais óbvio para impedir a transmissão de uma infecção sexualmente transmissível. E tivemos muito sucesso, em contraste, quando usamos as estratégias biomédicas para prevenção, principalmente com o uso das profilaxias pré-exposição e pós-exposição, que funcionam basicamente como uma pílula anticoncepcional para evitar a gravidez.
Essa profilaxia chega ao Brasil todo?
Claro que não. A profilaxia não chega em praticamente nenhum lugar do mundo no ritmo que gostaríamos. Mas, o que é importante é que onde a profilaxia pré-exposição entrou, houve uma diminuição inédita no número de casos novos. Isso foi comprovado em São Francisco (Estados Unidos), em Londres, Nova Gales do Sul (Austrália) e, agora, em São Paulo. Porém, a profilaxia é efetiva, mas não é democrática. Porque, em São Paulo, diminuiu a transmissão em homens brancos de uma classe social mais alta. Mas o homem preto não teve esse benefício porque é pobre e não tem acesso à informação e ao entendimento de muitas coisas. E a nossa luta é para tentar mostrar que a profilaxia é muito necessária. Além da desinformação, existe o preconceito, a discriminação e o estigma do próprio HIV.
…Temos de prosseguir em estudos de cura, porque isso será um componente importante nesse objetivo de viver em um mundo sem aids…
Se o sistema imune for mais resistente terá uma proteção maior ao vírus?
Eu disse que 1% das pessoas controlam o vírus – os controladores de elite. Se tratarmos uma pessoa no momento em que pega o HIV, nos momentos iniciais, antes mesmo do sinal de que o vírus esteja ali pela sorologia, é possível transformar esse 1% em 25%. O que acontece é que, na hora que tratamos essas pessoas no momento inicial, é possível diminuir muito a quantidade de vírus e o componente antigênico, e isso possibilita que o corpo monte uma defesa – que é um mecanismo chamado de tolerância. Por exemplo, para desenvolver uma vacina pegamos um componente antigênico, injetamos na pessoa e o sistema imune vai reconhecer que aquele componente não pertence àquele ambiente. Assim, vai montar uma defesa e eliminar o invasor. E, na hora que o indivíduo tiver contato com aquele componente antigênico através de um vírus ou de uma bactéria, já aprendeu a eliminar. Isso é a antigenicidade. Mas, se pegarmos esse mesmo componente antigênico e injetar no corpo da pessoa em uma quantidade muito grande ou muito complexa, o corpo não saberá lidar com aquilo. E o nome disso é tolerância. Então, o que acontece com HIV é a tolerância naquele momento inicial, nos primeiros seis meses em que o indivíduo tem essa fratura do sistema imune. Tanto é que, se tratarmos as pessoas nesse comecinho, aumenta as chances de controlarem o vírus de forma significativa. Temos de tentar vencer essa tolerância nos primeiros momentos que o corpo entra em contato com o HIV.
Qual é o segmento da população mais afetado pelo HIV atualmente?
Esse vírus saiu da África e entrou nas Américas inicialmente, via Haiti, por meio de homens que faziam sexo com homens (efeito fundador). Quando o HIV foi visto primeiro no Brasil estava nessa população com algumas características: homens ricos que faziam sexo com homens. E estava mais concentrado na cidade de São Paulo. No começo da epidemia, para cada mulher tínhamos 36 homens infectados. E aí a epidemia mudou, teve uma dinâmica. Primeiro, saiu de São Paulo e hoje está presente em qualquer lugar do Brasil; segundo, se feminilizou. O que era 1 para 36 até poucos anos passou a ser 1 para 2,5 homens para cada mulher com HIV. Aliás, na África há mais mulheres do que homens com o vírus. E a terceira questão é que a epidemia se pauperizou e, hoje, é uma doença de gente pobre. O HIV pega qualquer pessoa, mas agora a epidemia volta a se concentrar novamente um pouco mais em jovens do sexo masculino que fazem sexo com homens. Mas temos de considerar que, apesar de entendermos como o HIV é transmitido, existem algumas facilidades de transmissão em algumas atividades distintas sexualmente. E teríamos de simplesmente olhar todo tipo de pessoa, considerando que todo mundo é vulnerável a adquirir o HIV.
O fato de ter deixado de ser uma doença mortal faz com que os jovens, especialmente, tomem menos cuidado?
Mudou bastante o que chamamos de percepção do HIV por essa boa notícia da diminuição da mortalidade. Não é para ninguém morrer de aids, mas isso ainda acontece. E acontece basicamente porque demoramos, às vezes, para detectar o HIV no corpo da pessoa. E também porque tem gente que não toma os medicamentos por uma série de motivos. Às vezes, o medicamento não funciona porque o vírus ficou resistente. Mas o fato de entendermos hoje que a expectativa de vida de quem tem HIV pode ser tão longa quanto a de quem não tem HIV, muda essa percepção da doença que era inevitavelmente mortal. Passamos por uma fase muito sofrida no começo da epidemia, porque não conseguíamos fazer nada, éramos meros espectadores da catástrofe. A nossa função, hoje em dia, é fazer com que o HIV não saia da agenda, porque queremos viver em um mundo que não tenha HIV nem aids.
Os resultados deste estudo dão mais esperança para quem vive com HIV?
Mais do que isso, é uma necessidade. No momento em que começamos a divulgar os primeiros resultados, as pessoas começaram a nos procurar para participar dos estudos. Temos mais de 650 pessoas que nos procuraram sem termos chamado, sem saberem o que significa participar de um estudo desses. Entendemos, primeiro, que temos de prosseguir em estudos de cura, porque isso será um componente importante nesse objetivo de viver em um mundo sem aids, assim como tratar todo mundo, diminuir a transmissão de mãe para filho e desenvolver uma vacina. E teremos de curar as pessoas para conseguir isso. Não é algo para esse futuro imediato, mas é o correto a ser feito, porque é uma necessidade das pessoas que convivem com o HIV. •
“É claro que a ciência vai avançando e o nosso estudo colocou um pedacinho de perspectiva nisso para, cada vez mais, chegarmos próximos do momento em que teremos uma escala grande de pessoas que podem ter essa remissão sustentada do HIV…
…Temos de prosseguir em estudos de cura, porque isso será um componente importante nesse objetivo de viver em um mundo sem aids…

