Os dois anos de idade das crianças chegam como uma verdadeira montanha-russa. Repletos de energia, curiosidade e vontade constante de descobrir o mundo ao redor, as crianças começam a desafiar limites e testar novos comportamentos. Essa fase é marcada por intensos conflitos internos na criança, que misturam frustração e desejo de independência. Conhecida como ‘adolescência do bebê’ ou ‘terrible two’ (terríveis dois anos, em inglês), este é um período importante para o desenvolvimento emocional e cognitivo da criança, além de ser um grande desafio para os pais.
Assim, quando um bebê percebe ser um indivíduo com desejos e opiniões próprias, passa a se comportar de modo opositivo às solicitações dos pais. “Além de adotar a palavra ‘não’ como favorita, o bebê passa a ter atitudes difíceis de lidar. Esse é o período que surgem muitas birras, teimosia e impaciência, pois a criança ainda está aprendendo a lidar com suas próprias emoções e frustrações”, observa o médico André Ceballos, neurocirurgião e especialista em desenvolvimento infantil.
Desenvolvimento e aprendizado
Durante os dois anos de vida, o cérebro da criança passa por uma reorganização intensa, formando as conexões cerebrais que sustentarão o aprendizado ao longo da vida. Neste período, habilidades motoras, linguísticas e sociais estão em pleno desenvolvimento. “Portanto, estimular essas áreas de forma adequada é fundamental para garantir um crescimento equilibrado”, avalia o especialista, que é diretor técnico do Hospital São Francisco, em São Paulo. Quando os estímulos são insuficientes – seja em interações com os pais ou em brincadeiras que desafiem a motricidade –, o desenvolvimento pode ficar comprometido. Com isso, mais tarde pode haver um impacto negativo em relação à socialização e ao aprendizado.
Por ser um processo natural do desenvolvimento infantil, toda criança passa por essa fase. Entretanto, o modo e a intensidade como cada uma reage é individual. No geral, é comum que em um momento de frustração a criança se lance no chão, jogue objetos, grite ou chore. O médico comenta que os pais precisam ter muita paciência para mostrar para a criança que esse tipo de comportamento não traz benefícios. “Bater ou gritar são atitudes disfuncionais e pioram o cenário. Portanto, a conversa é fator fundamental, mas não durante uma birra. O ideal é aguardar o momento em que todos estiverem calmos para, então, dialogar”, ensina.
Episódios podem ser minimizados
Apesar de ser uma fase difícil e desgastante para pais e cuidadores, a ‘adolescência do bebê’ faz parte de um processo transitório. Mais do que a autonomia, essa fase prepara a criança para lidar com seus sentimentos, especialmente as frustrações. Portanto, por mais desafiador que seja, um dos pontos principais é não ignorar a criança, mas adotar medidas que ajudem a família a enfrentar essa fase com mais leveza.
“Embora sejam muitos os desafios em torno dos ‘terríveis dois anos’, este é um momento especial de descobertas, crescimento e desenvolvimento”, avalia o médico. Em resumo, se os pais mantiverem o equilíbrio entre estímulos e a paciência, essa fase pode ser vivida com mais leveza e alegria. Afinal, cada aprendizado conquistado é um passo importante para o futuro da criança.
Recomendações do especialista!
- Brincadeiras simples geram bons resultados – Blocos, quebra-cabeças ou jogos de encaixe são ideais para ajudar a criança a canalizar a energia e aprender a lidar com pequenos desafios. Esses momentos de tentativas e erros estimulam habilidades importantes, como perseverança e autocontrole, que são essenciais para a construção de outras mais complexas no futuro.
- Estímulo da linguagem – Converse constantemente com a criança, leia histórias curtas e a incentive a nomear objetos ao redor. Esse é um momento ideal para ampliar o vocabulário.
- Incentive a atividade física – Passeios ao ar livre e brincadeiras que envolvem movimento, como correr ou brincar com um cachorro, são ótimos para a criança de dois anos. Nesta fase em que precisam gastar energia, a atividade física é ideal para o desenvolvimento das habilidades motoras e para combater o sedentarismo.
- Exploração criativa – A criatividade começa a florescer neste período. Assim, brincar com giz de cera, tintas laváveis ou massinha de modelar são formas de estimular a imaginação e a coordenação motora fina. Além de permitir que a criança se divirta e gaste energia, esse tipo de atividade aprimora habilidades para o desenvolvimento cognitivo e emocional.
- Paciência e limites – É muito importante que os pais estabeleçam regras claras nesta fase. Embora busquem mais independência, as crianças ainda precisam de estrutura para se orientar e aprenderem a lidar com suas emoções. Limites estabelecidos com carinho ajudam a desenvolver o autocontrole e a capacidade de enfrentar frustrações. Da mesma forma, dar escolhas limitadas – por exemplo, “você quer colocar a camiseta azul ou a vermelha?” – permite que a criança sinta um senso de controle, mas dentro do que é permitido.

