As mulheres são frequentemente acometidas por transtornos mentais, que tendem a aumentar nas fases de transição para a menopausa. E, durante a menopausa, potencialmente agravam condições preexistentes. Da mesma forma, transtornos mentais e muitas doenças crônicas são desencadeados ou exacerbados por um estado inflamatório sistêmico crônico de baixo grau que pode ser atribuído ao processo de envelhecimento e à própria menopausa. Por causa dessas duas condições, a gordura corporal sofre expansão e redistribuição, especialmente para os depósitos abdominais e viscerais, aumentando a expressão e a liberação de moléculas inflamatórias.
Em geral, a prevalência de doenças articulares é maior entre mulheres com transtornos mentais comuns (TMC). Por sua vez, a atividade física proporciona múltiplos efeitos benéficos à saúde, sendo capaz de modular mediadores inflamatórios, funções neuronais e expressão de neurotrofinas. Portanto, a prática gera benefícios em desfechos como saúde mental e doenças crônicas não transmissíveis.
De acordo com o pesquisador João Valentini Neto, da Universidade de São Paulo (USP), nutrição e atividade física são componentes essenciais do estilo de vida. Além disso, alguns alimentos, nutrientes ou compostos bioativos podem modular vias inflamatórias. “Sob essa perspectiva foi desenvolvido o índice inflamatório dietético, que já foi associado à saúde cardiovascular, à gravidade da artrite reumatoide, aos transtornos mentais, a sintomas depressivos e à mortalidade”, explica.
Sendo assim, a hipótese é que ter menor nível de atividade física e ter uma dieta habitual considerada mais pró-inflamatória estão associados a maiores chances de apresentar TMC. Para investigar os achados, os pesquisadores da USP investigaram a associação entre os aspectos do estilo de vida e esses transtornos em mulheres com 40 anos ou mais, considerando algumas variáveis de confusão.
Alimentação e atividade física
O estudo foi desenvolvido com dados do Inquérito de Saúde de São Paulo com foco em Nutrição, o ISA Nutrição. O estudo transversal, de base populacional, contou com uma amostra representativa de residentes urbanos de São Paulo. Os transtornos mentais comuns foram investigados pelo Self-Reporting Questionnaire-20.
Enquanto isso, o potencial inflamatório da dieta foi avaliado pelo índice inflamatório dietético e o nível de atividade física foi avaliado pelo IPAQ, adotando a dimensão lazer da atividade física. Também foram considerados como variáveis de ajuste a presença de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) autorreferidas, os intervalos de idade, escolaridade, índice de massa corporal (IMC) e etnia.
Os principais achados indicam que a prevalência de transtornos mentais comuns foi de 32,2% e a frequência de uma ou mais doenças crônicas não transmissíveis foi de 67,2%. No modelo final de regressão, os transtornos mentais foram associados ao tercil mais alto do índice inflamatório dietético e a ter três ou mais doenças crônicas não transmissíveis. Em conjunto, os resultados indicam que características inflamatórias da dieta e atividade física, juntamente com DCNT, estão associadas ao TMC em mulheres com 40 anos ou mais em diferentes dimensões.
“Nossos achados corroboram a literatura, que indica taxas mais altas de depressão e ansiedade entre pessoas com alterações inflamatórias e, possivelmente, uma interação entre os sistemas imunológico e neuroendócrino”, explica o pesquisador João Valentini Neto – um dos autores do estudo. Além disso, ter pelo menos três doenças não transmissíveis foi independentemente associado à TMC, sugerindo a inflamação como um conector essencial.
Ademais, foi possível demonstrar que a dieta tem uma associação independente e significativa com o histórico inflamatório, como a presença de condições crônicas com etiologias relacionadas à inflamação sistêmica crônica de baixo grau. Todos esses achados reforçam a importância de investigar tais características em mulheres com 40 anos ou mais, uma vez que apresentam flutuações hormonais e, posteriormente, alterações aceleradas na composição corporal e algumas alterações em seus papéis sociais.
“Por fim, dieta e atividade física são fatores ambientais modificáveis amplamente indicados como críticos na prevenção e no manejo de doenças crônicas não transmissíveis”, afirma o pesquisador. Assim, esforços podem ser feitos para desenvolver e testar intervenções em dieta e exercícios com o objetivo de aliviar e prevenir desfechos adversos, como transtornos mentais comuns.
Os resultados indicam que o potencial inflamatório da dieta e a atividade física são fatores de estilo de vida associados a condições crônicas e transtornos mentais comuns em mulheres com 40 anos ou mais. O estudo ‘Lifestyle aspects are associated with common mental disorders in women over 40 years older in a population-based study’ foi publicado em setembro de 2024 no Clinical Nutrition ESPEN.

