O Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) foi responsável pela produção de dois artigos com recomendações sobre atualizações no processo diagnóstico e no tratamento da doença de Alzheimer. Ambos foram publicados na revista Dementia & Neuropsychologia.
O primeiro deles diz respeito ao uso de biomarcadores e tem como objetivo estabelecer um consenso sobre o uso correto dos exames. Atualmente, os biomarcadores podem ser obtidos do líquor, do plasma, e em exames de imagem, como tomografia e ressonância.
Os biomarcadores representam uma grande reviravolta no diagnóstico da doença de Alzheimer. Até então, o diagnóstico era clínico, com sintomas como esquecimento, perda de funcionalidade, dificuldade visual ou de linguagem. Os sintomas aparecem na forma tardia da doença, mas as alterações no cérebro podem ser detectadas até 20 anos antes.
De acordo com a médica neurologista Elisa de Paula França Resende, a patologia já está no cérebro e pode ser identificada mesmo em pessoas que não têm sintomas. A coordenadora do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia acentua que o diagnóstico permite o desenvolvimento de pesquisas com o objetivo de desenvolver tratamentos eficazes em pessoas assintomáticas.
Porém, como ainda não existe tratamento para as formas assintomáticas da doença, o diagnóstico nessa fase não tem vantagem do ponto de vista clínico. Isso porque não há como evitar que o paciente desenvolva sintomas, caso seja detectada a presença dos biomarcadores. “E ainda há pessoas que têm a doença de Alzheimer no cérebro e não manifestam sintomas nunca”, explica a médica.
A orientação é que os biomarcadores só devem ser pedidos para pessoas com sintomas. De acordo com o neurologista Adalberto Studart Neto, alguns médicos estão pedindo biomarcadores como se fosse exame de triagem. “Não tem tratamento para evitar a doença ou que previna a evolução. Em pessoas assintomáticas, não tem como dizer se o paciente vai desenvolver a doença, não se sabe em quanto tempo e nem se vão de fato vir a ter sintomas”, alerta.
Terapia antiamiloide
Outra frente do departamento da ABN é aprofundar a discussão sobre novos tratamentos para a doença de Alzheimer. Particularmente, os anticorpos monoclonais antiamiloides como o lecanemab e o donanemab demonstraram benefícios clínicos modestos, mas também riscos significativos.
O neurologista Breno Barbosa informa que a doença de Alzheimer é, hoje, a principal causa de demência no mundo. Por ser um problema de saúde pública, todos estão em busca de soluções. As iniciativas envolvem desde como melhorar o diagnóstico com exames de imagem, líquor e sangue até a busca por tratamentos mais eficazes para essa doença sem cura. Os tratamentos atualmente disponíveis são capazes apenas de amenizar os sintomas.
“Nos últimos anos, aumentou o volume de pesquisas com novos fármacos capazes de reduzir a proteína amiloide, a principal envolvida no início da doença. A proposta dessas moléculas seria de, não apenas amenizar, mas atacar a proteína que causa o Alzheimer, retardando a velocidade da doença”, explica. O médico foi o responsável pela coordenação do artigo ‘Uso de terapias antiamiloide para doença de Alzheimer no Brasil’.
No entanto, a maioria dos fármacos não foi capaz de reverter a doença ou impedir sua progressão. O custo é outro entrave desses novos medicamentos, que são muito caros. O lecanemab chega a 25 mil dólares por ano, enquanto o donanemab alcança 32 mil dólares.

