A gota é uma inflamação nas articulações causada por acúmulo de cristais de ácido úrico nas juntas. A doença afeta ao menos 2% da população adulta, com maior prevalência em homens acima dos 50 anos de idade. Desde 2024, há nova diretriz sobre o tema lançada pela Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) e a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML). A normativa estabelece um limite ainda mais preciso para os níveis máximos de ácido úrico no sangue considerados normais.
Com base na literatura científica sobre o tema, o objetivo das entidades é evitar que o paciente chegue ao ponto de desenvolver a deformação das articulações. Os níveis séricos de ácido úrico no sangue da população em geral variam de 3,4mg/dL a 7mg/dL. No entanto, a nova diretriz passa a indicar o limite de 6mg/dL como nível a não ser ultrapassado por pessoas com histórico de gota.
A hiperuricemia, condição caracterizada por níveis elevados de ácido úrico no sangue, é um processo que envolve o metabolismo das purinas. Essas moléculas existentes no DNA e no RNA fazem parte de alguns alimentos, sobretudo carnes vermelhas, miúdos, frutos do mar e refrescos açucarados. Além disso, estão presentes em bebidas alcoólicas fermentadas ou destiladas e em alguns medicamentos, como os diuréticos. A hiperuricemia também está diretamente relacionada a condições e hábitos típicos da vida moderna, como obesidade, sedentarismo, dieta inadequada e colesterol alto.
Mecanismo
Em pessoas saudáveis, com uma rotina equilibrada e sem propensão ao quadro de gota, o organismo elimina o excesso de ácido úrico. Nos pacientes com gota, porém, o ácido úrico fica retido e começa a se depositar em tecidos como rins, pele e articulações, causando a pane inflamatória e dolorosa. A dor ocorre nas crises, porque o ácido úrico se cristaliza como agulhas que atingem o dedão do pé, tornozelo ou cotovelo.
Atualmente, o controle do problema é feito com medidas e medicamentos para reduzir a produção do ácido úrico ou incentivar sua eliminação. De acordo com o médico reumatologista Geraldo Castelar, membro da SBR e um dos autores do documento, essa estratégia é teoricamente perfeita. Contudo, no dia a dia o resultado não é bom porque trata apenas a crise aguda e não a causa da gota. “Para piorar, a maioria dos pacientes é do sexo masculino, população conhecida por ir menos aos consultórios e não aderir com afinco a tratamentos e mudanças no estilo de vida”, enfatiza. Portanto, o ideal é que ocorra um controle antes que os ataques prejudiquem as articulações.
As crises de gota, que chegam a durar 10 dias, também podem trazer prejuízos à saúde renal e cardiovascular. “Ter noção do índice a ser mantido pode mudar a rotina de profissionais, pacientes e familiares”, destaca o médico. Isso porque todos esses atores terão um marcador de quando será necessário intervir e iniciar as medicações, antes de penar com os sintomas.
Cuidados
Os exames podem ser feitos entre cada 4 a 6 meses para medir o ácido úrico no paciente que possui gota. De acordo com o médico, esse monitoramento é necessário para quem tem a doença. Entretanto, a população em geral não precisa medir com frequência, sobretudo se tem o histórico de ácido úrico normal. “Só há a necessidade de solicitar o ácido úrico quando o paciente tem algum dos fatores de risco”, acentua.
Esses fatores incluem principalmente doenças cardiovasculares, diabetes, síndrome metabólica, hipercolesterolemia e doença renal crônica. As mulheres após a menopausa também devem fazer esse acompanhamento, devido à perda do hormônio feminino que traz uma proteção extra. “Por isso, mulheres com mais de 60 anos são as mais afetadas pela gota”, afirma o patologista clínico Luis Eduardo Coelho Andrade, membro da SBR.

