O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) possui etiologia complexa, envolvendo uma interação entre predisposições inatas e influências ambientais. Destas, a genética é responsável por 80% dos fatores que explicam ter ou não TDAH na população, sendo considerada o principal fator de risco para o seu desenvolvimento. De acordo com a literatura científica, raramente o TDAH se manifesta isoladamente, ocorrendo em conjunto com condições neuropsiquiátricas e somáticas, entre elas a migrânea (enxaqueca) e as dores crônicas em geral. Com o objetivo de identificar mecanismos biológicos compartilhados, um estudo inédito conduzido pela Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) revelou uma conexão genética importante entre o TDAH e a dor crônica multissítio (múltiplos locais).
Através de Associação Genômica Ampla (leitura do DNA), os autores investigaram uma possível conexão biológica entre TDAH, enxaqueca e dor crônica multissítio. “Avaliamos as pontuações de risco poligênico (PRSs) de ambos os quadros de dor em relação a perfis comórbidos, gravidade dos sintomas e escores cerebrais de neuroimagem em indivíduos com ou sem TDAH do Brasil”, descrevem. Além disso, o estudo analisou um conjunto de dados global que incluiu 38.691 indivíduos com diagnóstico de TDAH e 186.843 participantes controle. Para a migrânea foram 48.975 casos e 540.381 controles. Já os dados da dor crônica multissítio totalizaram 412.985 indivíduos.
Achados
Os resultados observados mostram uma forte sobreposição biológica/genética entre TDAH e a dor crônica multissítio, com uma relação menos pronunciada com a enxaqueca. Os autores apontam que regiões e genes-chave associados ao TDAH e à dor crônica apresentaram enriquecimento em vias envolvidas no desenvolvimento do cérebro, incluindo as envolvidas na morfogênese da projeção dos neurônios e no desenvolvimento do sistema nervoso. “Isso indica que não se pode mais tratar a dor crônica multissítio apenas como uma condição somática, pois tal achado reforça a ideia de que o cérebro e o sistema nervoso central exercem um papel chave nas duas condições”, destacam os autores.
Sobre o envolvimento do sistema imunológico no TDAH e na dor crônica, os resultados sugerem que os mecanismos neuroinflamatórios podem desempenhar um papel comum na fisiopatologia de ambas as condições. Outro ponto analisado diz respeito ao enriquecimento de conjuntos de medicamentos. A análise identificou que algumas dessas vias são potencialmente relacionadas aos efeitos do paracetamol. Este fármaco, segundo achados científicos, tem sido implicado como fator de risco ambiental de pequeno efeito para TDAH – quando a exposição ocorre no período pré-natal. “No entanto, os achados reforçam os estudos que mostram que esse efeito surge a partir da genética compartilhada entre TDAH e dor e não por uma ação direta do paracetamol, o que em ciência é conhecido como viés”, comentam.
Em resumo, os achados ressaltam a importância da relação entre o TDAH e a dor crônica, indicando que fatores genéticos compartilhados podem influenciar o desenvolvimento cerebral e contribuir para diversos desfechos clínicos relacionados ao transtorno. O artigo ‘Genetic Interplay Between Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and Pain Suggests Neurodevelopmental Pathways and Comorbidity Risk’ foi publicado em julho de 2025 na Plataforma Science Direct

