A miocardiopatia periparto se manifesta por insuficiência cardíaca em decorrência do aumento no tamanho dos ventrículos do coração. Rara, grave e silenciosa, a enfermidade pode acometer mulheres no final da gestação ou até cinco meses após o parto. Pré-eclâmpsia, idade materna avançada, gemelaridade e afrodescendência são apontadas como os principais fatores de risco. De acordo com dados da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) – rede que administra 45 hospitais universitários federais –, o diagnóstico tardio pode evoluir para quadros graves e potencialmente fatais.
O obstetra e ginecologista Jedson F. de Castro, do Hospital Universitário Professor Alberto Antunes da Universidade Federal de Alagoas (HUPAA-Ufal/ Ebserh), explica que a miocardiopatia periparto é uma forma pouco frequente de insuficiência cardíaca de causa não totalmente compreendida. “Evidências científicas apontam que a condição seja multifatorial, envolvendo uma combinação de fatores genéticos, inflamatórios, hormonais, resposta anormal ao estresse oxidativo, hipertensão arterial crônica ou induzida pela gestação”, relata.
Na prática, a condição ocorre pela disfunção do ventrículo esquerdo que afeta a capacidade do coração de bombear sangue de forma eficaz. Geralmente, atinge mulheres previamente saudáveis e sem histórico de doença cardíaca no final da gravidez ou no início do puerpério. “Embora possa ocorrer em qualquer idade, é mais comum em mulheres acima dos 30 anos, afrodescendentes, com distúrbios hipertensivos ou gestações múltiplas”, observa a ginecologista neonatal Maria da Guia de Medeiros, da Maternidade Escola Januário Cicco da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (MEJC-UFRN).
Em alguns casos, a condição pode se manifestar concomitante a outras doenças crônicas que as mulheres já se apresentam antes da gestação. Nos países em desenvolvimento, por exemplo, predominam as doenças valvares – sobretudo valvopatia reumática – como causa de morte materna obstétrica indireta. “Já nos países desenvolvidos há um predomínio das cardiopatias congênitas”, comenta o cardiologista José Magalhaes Filhos, do Hospital Universitário Professor Edgard Santos da Universidade Federal da Bahia (Hupes-UFBA-Ebserh).
Sinais de alerta
Os sintomas da miocardiopatia periparto incluem falta de ar, fadiga intensa, inchaço nas pernas e pés, tosse, palpitações e tontura. “Como podem se manifestar de forma inespecífica e alguns serem semelhantes aos sinais normais da gravidez, o diagnóstico muitas vezes é tardio”, enfatiza a ginecologista Maria da Guia de Medeiros. Dessa forma, além de observar os sintomas é preciso estar atento às características gestacionais de cada paciente.
Por ser uma das principais causas de morte cardiovascular na gestação, o diagnóstico precoce é fundamental para garantir melhor prognóstico. De acordo com o ginecologista Jedson F. de Castro, o diagnóstico é de exclusão. “O médico deve afastar outras condições cardíacas ou pulmonares que podem causar os mesmos sintomas, como pré-eclâmpsia, embolia pulmonar, miocardite ou doenças valvares pré-existentes”, sugere. Além de exame clínico e histórico familiar, são solicitados exames complementares como ecocardiograma, eletrocardiograma, radiografia de tórax e ressonância magnética cardíaca.
Apesar de não haver cura, o tratamento adequado possibilita uma recuperação significativa da função cardíaca nos primeiros meses após o tratamento. Entretanto, o acompanhamento médico contínuo é essencial devido ao risco de complicações ou recorrência em futuras gestações. Segundo os especialistas, o tratamento farmacológico tem por objetivo controlar os sintomas e ajudar a restaurar a função do coração.
Prevenção
A prevenção da doença concentra-se no controle dos fatores de risco, gestão de condições de saúde preexistentes e estilo de vida. “Pacientes com gestação múltipla, com idade acima de 35 anos, histórico de hipertensão arterial, diabetes gestacional e doenças crônicas prévias precisam de atenção especial, pois fazem parte do grupo de risco”, avalia a ginecologista e obstetra Letícia de Medeiros Jales, do Hospital Universitário Ana Bezerra (HUAB-UFRN/Ebserh). Portanto, o pré-natal adequado – monitorado e acompanhado de hábitos de vida saudáveis – é a principal arma para prevenir e/ou identificar alterações de forma precoce, evitando desfechos desfavoráveis.
Sintomas
- Falta de ar
- Fadiga intensa
- Inchaço nas pernas e pés
- Tosse
- Palpitações
- Tontura

