O câncer de pulmão continua sendo a principal causa de mortalidade relacionada ao câncer em todo o mundo. De acordo com a International Agency for Research on Cancer (IARC), a neoplasia é responsável por mais de 1,8 milhão de mortes anualmente. Apesar dos avanços no diagnóstico molecular e do advento de terapias direcionadas e inibidores de checkpoint imunológico, o prognóstico para o câncer de pulmão avançado permanece ruim, com baixas taxas de sobrevida em cinco anos e frequente resistência terapêutica.
Essas limitações têm estimulado um crescente interesse em fatores não genéticos, extrínsecos ao tumor, que podem influenciar o início, a progressão e os resultados do tratamento. Dentre esses fatores, a microbiota humana emergiu como um modulador crucial da biologia do câncer.
Composta por trilhões de bactérias, vírus, fungos e outros microrganismos que residem nas superfícies mucosas, a microbiota interage com as vias imunológicas, metabólicas e inflamatórias do hospedeiro. Desta forma, cria uma rede bidirecional de comunicação entre os microrganismos e as células tumorais.
Respostas
A composição da microbiota tem sido associada a respostas diferenciais e toxicidades na quimioterapia, radioterapia, terapia-alvo e bloqueio de pontos de controle imunológico. Intervenções direcionadas à microbiota, como probióticos, transplante de microbiota fecal e antibióticos seletivos, mostram potencial promissor para aumentar a eficácia do tratamento e mitigar efeitos adversos.
Historicamente, os pulmões eram considerados estéreis. No entanto, tecnologias recentes de sequenciamento de alto rendimento revelam comunidades microbianas diversas e dinâmicas não apenas no intestino, mas também no trato respiratório inferior, no microambiente tumoral, na corrente sanguínea e até mesmo dentro dos tecidos tumorais.
Papéis composicionais e funcionais
Uma revisão científica realizada na China sintetiza o conhecimento atual sobre os papéis composicionais e funcionais da microbiota em múltiplos locais do corpo, incluindo intestino, pulmão, microambiente tumoral, circulação sanguínea e cavidade oral. O artigo destaca, ainda, as contribuições da microbiota para a iniciação, progressão, metástase e regulação imunológica do tumor.
De acordo com os autores, a pesquisa também oferece uma visão abrangente do papel emergente da microbiota no desenvolvimento e na terapia do câncer de pulmão, apresentando novas perspectivas para estratégias terapêuticas inovadoras. “Enfatizamos a comunicação bidirecional entre metabólitos microbianos e vias imunológicas do hospedeiro, particularmente o eixo intestino-pulmão, que modula a imunidade antitumoral sistêmica e local”, pontuam os responsáveis pelo trabalho.
Achados
Os autores relatam que muitas pesquisas demonstraram uma estreita associação entre a microbiota intestinal e a progressão de tumores gastrointestinais. Outros artigos sugerem que a microbiota derivada dos intestinos e aquela que coloniza os pulmões também desempenha um papel crucial no desenvolvimento e na progressão do câncer de pulmão.
Embora o trato gastrointestinal e o trato respiratório sejam anatomicamente separados, compartilham uma origem embrionária comum e exibem semelhanças estruturais significativas. De acordo com os autores, ambos são componentes integrais do sistema imunológico da mucosa.
“Essas características sugerem a possibilidade de interações bidirecionais entre o trato gastrointestinal e o trato respiratório, sustentadas por mecanismos semelhantes envolvendo células epiteliais, células imunes e diversas comunidades microbianas”, reforçam. O artigo ‘The emerging role of microbiota in lung cancer: a new perspective on lung cancer development and treatment’ foi publicado em agosto de 2025 na Cellular Oncology.

