Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto identificaram uma ferramenta capaz de prever complicações cardíacas em pacientes com doença de Chagas. Os achados apontam que o índice Global Longitudinal Strain (GLS), uma análise avançada do ecocardiograma, se destaca como um marcador sensível para a detecção precoce da disfunção ventricular na cardiomiopatia chagásica crônica. Grave e potencialmente fatal, essa condição é apontada como uma das principais causas de insuficiência cardíaca na América Latina.
A cardiomiopatia chagásica é a forma crônica e mais grave da doença de Chagas, causada pela infecção do parasita Trypanosoma cruzi. Associada à alta mortalidade, a condição danifica o tecido cardíaco progressivamente, provocando inflamação persistente, fibrose (cicatrizes) e aumento do coração. “Mesmo após a fase aguda, pode evoluir anos mais tarde para insuficiência cardíaca, arritmias graves e alto risco de morte súbita”, descrevem os autores. De acordo com relatos científicos, cerca de 30% das pessoas com infecção crônica pelo T. cruzi desenvolvem essa forma cardíaca ao longo da vida.
Os autores explicam, que a técnica de Strain miocárdico – já utilizada em outras cardiopatias – é um método avançado de ecocardiografia (exame de ultrassom do coração) que permite verificar o GLS ao rastrear pontos de brilho na imagem cardíaca (speckle tracking). Com esse índice é possível identificar se o miocárdio está deformando adequadamente durante sua sístole (contração), sinal essencial para detectar danos no tecido cardíaco antes mesmo que se tornem evidentes na forma de fibrose.
Métodos
A pesquisa analisou 77 pacientes (50,6% do sexo masculino) com diagnóstico de cardiomiopatia crônica de Chagas submetidos à ecocardiografia com medição do GLS. Os participantes foram divididos em três grupos de acordo com os valores de GLS e acompanhados por aproximadamente três anos. Os pesquisadores avaliaram a ocorrência de desfechos como, por exemplo, morte cardiovascular, hospitalização por insuficiência cardíaca, arritmias ventriculares sustentadas, eventos embólicos e transplante cardíaco.
Principais achados
Os resultados mostraram que pacientes com GLS maior ou igual a -13,8% (mais comprometido) apresentaram pior prognóstico, com maior incidência de desfechos cardiovasculares e risco de óbito. “Mesmo após ajuste para idade, sexo e fração de ejeção do ventrículo esquerdo, o estudo demonstrou que o GLS do ventrículo esquerdo se manteve como preditor independente de desfechos clínicos e cardiovasculares adversos nesses pacientes”, observam os autores.
Por ser um método não invasivo, disponível e de custo acessível, o GLS pode contribuir para melhor estratificação de risco, monitoramento mais preciso da progressão da doença e tomada de decisão terapêutica individualizada. Entretanto, exige conhecimento técnico e interpretação especializada.
De acordo com os autores, a conclusão é que a incorporação dessa medida na rotina ecocardiográfica pode representar um avanço significativo para a estratificação de risco na doença de Chagas. O artigo ‘Global longitudinal strain as a predictor of outcomes in chronic Chagas’ cardiomyopathy’ foi publicado em agosto de 2025 na revista PLOS Neglected Tropical Diseases – doi: 10.1371/journal.pntd.0012941.

