O intestino humano abriga uma comunidade diversificada de espécies microbianas que formam a microbiota intestinal. Esses microrganismos desempenham papéis vitais na digestão, modulação do sistema imunológico, regulação metabólica e comunicação neurológica. Além disso, são essenciais para a manutenção da saúde e da patogenicidade, sendo o desequilíbrio (disbiose) associado a várias enfermidades, como a síndrome do intestino irritável, doenças cardiovasculares, disfunção hepática e distúrbios psicológicos.
Dois filos principais dominam a microbiota intestinal – Bacteroidetes e Firmicutes –, representando 90% da população microbiana total. O restante da microbiota inclui membros de Proteobacteria, Actinobacteria, Fusobacteria e Verrucomicrobia. Entre estes está a Akkermansia muciniphila, uma bactéria anaeróbia estrita que reside predominantemente na camada de muco do trato gastrointestinal, particularmente no ceco. A bactéria está presente em 90% dos indivíduos saudáveis e constitui de 3% a 5% da microbiota intestinal desde o início da vida.
De acordo com pesquisadores norte-americanos, a bactéria Akkermansia muciniphila coloniza a microbiota intestinal de forma estável durante o primeiro ano de vida. No entanto, apresenta um declínio significativo em indivíduos idosos e naqueles com distúrbios inflamatórios e metabólicos, incluindo diabetes, câncer, obesidade e doenças inflamatórias intestinais.
Mais recentemente, a Akkermansia muciniphila emergiu como um modulador chave da fisiologia do hospedeiro, com implicações significativas para a saúde e a doença. Evidências crescentes mostram, ainda, que a bactéria influencia o metabolismo do hospedeiro, fortalece a integridade da barreira intestinal, modula a composição microbiana e regula as respostas imunes.
Por isso, os pesquisadores realizaram uma revisão científica que sintetiza a literatura atual sobre essa bactéria. O artigo enfatiza o papel da Akkermansia muciniphila em condições como distúrbios metabólicos, doença inflamatória intestinal, infecção por Clostridioides difficile, câncer, doenças cardiovasculares e envelhecimento.
Influência em diversos distúrbios
A investigação mostra a A. muciniphila como potencial terapêutico e abre novas perspectivas para o aproveitamento da microbiota intestinal na manutenção da saúde sistêmica. As pesquisas sobre a bactéria destacam o papel fundamental no controle de doenças metabólicas, na preservação da integridade intestinal, na redução da inflamação e na promoção da longevidade.
Em distúrbios metabólicos, por exemplo, a A. muciniphila melhora a sensibilidade à insulina, reduz a adiposidade e aumenta a secreção de GLP-1 por meio de mecanismos que envolvem a produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) e a ativação do TLR2. “Essa proteína fundamental à imunidade inata expressa na superfície de células imunes para reconhecer patógenos como bactérias, fungos e vírus”, sinalizam os autores.
A bactéria estudada também restaura o equilíbrio microbiano e reduz a inflamação no diabetes tipo 2 e na doença hepática gordurosa não alcoólica. Na doença inflamatória intestinal, a A. muciniphila melhora a secreção de muco, a integridade das junções estreitas e a expansão de células T reguladoras. Ademais, suprime citocinas pró-inflamatórias.
“Já na infecção por Clostridium difficile, promove a proteção epitelial e a resistência à colonização, enriquecendo as células produtoras de butirato”, afirmam os autores. No câncer, aumenta a eficácia dos inibidores de checkpoint imunológico, intensificando a IL-12 e a ativação de células T. Também reduz a inflamação vascular e a calcificação em doenças cardiovasculares por meio da produção de propionato – um AGCC.
Potencial terapêutico
De acordo com os autores, no envelhecimento a A. muciniphila melhora a saúde metabólica, reduz a inflamação crônica, promove a produção de ácidos graxos de cadeia curta e preserva a integridade da barreira hematoencefálica. Entretanto, os pesquisadores pontuam que ainda são necessárias pesquisas adicionais para explorar plenamente o potencial terapêutico.
“A identificação de moléculas bioativas específicas produzidas por essa bactéria e a exploração dos benefícios sinérgicos em combinação com outras estratégias terapêuticas permitirão uma modulação mais precisa da saúde do hospedeiro”, reforçam. Dessa forma, acreditam que preencher essas lacunas de conhecimento abrirá caminho para que a A. muciniphila se torne uma estratégia terapêutica viável para uma ampla gama de condições de saúde. O artigo ‘Akkermansia muciniphila: A key player in gut microbiota-based disease modulation’ foi publicado em dezembro de 2025 no periódico Microbiological Research.

